domingo, 15 de junho de 2014

“O Maraca é nosso”? | As torcidas de futebol do Rio de Janeiro e suas percepções sobre o novo Maracanã (Bernardo Buarque de Hollanda)

“O Maraca é nosso”? | As torcidas de futebol do Rio de Janeiro e suas percepções sobre o novo Maracanã

14.06.13_O Maraca é nossoPor Bernardo Buarque de Hollanda e Jimmy Medeiros.
Introdução
Uma das polêmicas que envolveu os preparativos da Copa do Mundo da FIFA no Brasil foi a conversão de suas antigas praças de desportos em as arenas multiuso, modernizadas para o torneio que se realiza no momento. Dentre os efeitos perversos deste processo, pode-se apontar o encarecimento do preço dos ingressos para o público frequentador de estádios no país.
O dispêndio de dinheiro público e as parcerias do Estado com a iniciativa privada geraram nos últimos sete anos uma série de ceticismos e críticas por parte da opinião pública. Especulou-se o ônus para o governo brasileiro no provimento de tal “legado” esportivo. Os protestos populares dos meses de junho e julho de 2013, que coincidiram com a Copa das Confederações realizada no Brasil, foram um sintoma contundente das discórdias em torno do acontecimento promovido pela FIFA.
Junto à elitização das praças de esportes, o modelo das arenas implica, como sabemos, numa mudança substancial do tipo de comportamento do torcedor. Em especial, saliente-se a recomendação expressa dos gestores esportivos e dos arquitetos responsáveis para que os torcedores assistam às partidas sentados, em assentos individuais e personalizados, esteados no paradigma do conforto e das tecnologias de segurança. Isto se confronta com o hábito tradicional de parte significativa das plateias futebolísticas, ligadas a seus respectivos clubes, de assistir aos jogos em pé.
Assim, a acepção geral de “legado”, tal como requerida pela entidade suíça que comanda o futebol mundial, encontra no Brasil uma série de obstáculos quando aplicada a esse quesito. No país, os estádios têm uma tradição pública e não privada, isto é, foram construídas em sua maioria pelo governo federal entre os anos 1950 e 1970. Apenas de maneira pontual houve a presença da iniciativa particular dos clubes. Ao mesmo tempo, os espectadores que tradicionalmente assistem às partidas são aqueles interessados no futebol de clubes, e em campeonatos em escala nacional e regional nos quais seus times participam.
Desde a década de 1990, são pouco frequentes as partidas da Seleção Brasileira no país, uma vez que a CBF – Confederação Brasileira de Futebol – e suas empresas patrocinadoras cada vez mais preconizam um calendário de jogos no exterior, o que lhes proporciona mais benefícios financeiros.
Sendo assim, para além da necessária renovação e reforma dos estádios brasileiros, a adequação às exigências da FIFA coloca em questão a modificação radical da fisionomia social do público pagante e, por conseguinte, da configuração futebolística. Trata-se de sua modernização e da subsequente adequação aos padrões internacionais das arenas multiuso.
Em poucas palavras, isso acarreta a correlata mudança da “cultura torcedora” no Brasil. São essas disputas entre “tradição” e “modernidade” no interior dos estádios que têm dividido opiniões na sociedade e ocupado o centro das atenções nos meses que antecedem a realização do megaevento esportivo.
Para apresentar esse tema aos leitores do blog da Boitempo Editorial, estruturamos nosso texto em torno de um caso: o da destruição e o da reconstrução do Maracanã. Partimos de um impasse, qual seja, o legado das praças esportivas proposto pela FIFA não coincide com o modo tradicional de torcer nos estádios brasileiros. Grosso modo, a disparidade entre um e outro opõe a adesão contínua durante todo o ano ao clube do coração e o apoio sazonal – a cada quatro anos –, embora com apelo coletivo midiático, à seleção nacional.
Se a valoração positiva aparece implícita na altruística categoria “legado”, cunhada nas últimas décadas pela FIFA, com vistas a criar um compromisso social do país-sede para com a sua população, os gastos públicos com a reforma e com a construção de novas arenas, com particular atenção ao estádio do Rio de Janeiro – o mais tradicional e vetusto dos doze eleitos e soerguidos para a Copa –, ocasionaram efeitos inesperados e indesejados. Estes apontam em sentido contrário, como os já mencionados distúrbios durante a Copa das Confederações, ocorridos no ano passado, e que podem se repetir durante a Copa do Mundo.
Ademais, as experiências negativas em estádios recém-inaugurados para a Copa, através de confrontos entre torcedores de clubes oponentes no Campeonato Brasileiro de 2013 – as arenas de Brasília, Porto Alegre e Fortaleza enfrentaram esse tipo de problema –, fazem com que a positividade supostamente intrínseca ao Mundial possa ser relativizada, ou vista com mais cautela, quando se pensa na forma de torcer dentro dos novos espaços futebolísticos.
Com base em um survey realizado no estádio durante o ano de 2013, aplicado por estudantes de Ciências Sociais a pouco mais de quatrocentos frequentadores, ligados por sua vez às torcidas organizadas dos grandes clubes da cidade, vamos apresentar a seguir as percepções amostrais desses torcedores com relação a três variáveis:
A. O grau de satisfação com o novo estádio;
B. A avaliação que os mesmos fazem da infraestrutura do Maracanã para a Copa de 2014;
C. A possibilidade de a arena ainda ser palco para as formas coletivas de animar e de apoiar o time.
Percepções dos torcedores acerca do Novo Maracanã
Após 32 meses de interdição e de gastos da ordem de mais de meio bilhão de dólares para modificar a estrutura do estádio do Maracanã, os antigos frequentadores do espaço puderam no ano passado retornar e assistir aos jogos de futebol. Desde o dia 27 de abril de 2013, quando ocorreu o jogo entre as seleções do Brasil e da Inglaterra, o novo estádio foi reaberto e passou a ser utilizado em jogos da liga nacional pelos quatro grandes clubes do Rio: Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco da Gama.
Durante o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil de 2013, os dois principais torneios profissionais em âmbito nacional, ambos organizados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), realizamos um survey com membros das torcidas organizadas desses quatro clubes cariocas. Para efeito de seleção dos entrevistados, foi considerado “torcedor organizado” o sujeito que vestia camisa, boné, calça ou bermuda da facção investigada, bem como aqueles que portam bandeira ou instrumentos musicais. Uma vez identificado com uma destas características, a pessoa estava apta a ser abordada pela equipe a participar da pesquisa.
Para o survey, foi elaborado um questionário estruturado, composto por 66 perguntas. Como não existe um cadastro dos torcedores organizados dos clubes cariocas, o que possibilitaria a adoção de uma amostra probabilística, foi escolhida uma amostra do tipo não-probabilística para a realização da pesquisa de opinião.
O trabalho de campo ocorreu durante 20 jogos transcorridos pelas duas competições. Seu início deu-se em 1º de agosto e seu fim em 16 de outubro de 2013. Neste período, foram coletados 426 questionários nas arquibancadas do estádio Maracanã e do estádio de São Januário, onde atua o Clube de Regatas Vasco da Gama.
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A pesquisa permitiu mensurar informações como o perfil sociodemográfico do torcedor organizado e produzir indicadores quantitativos para entender o seu vínculo com o futebol. O questionário proporcionou também entender a forma pela qual o torcedor manifesta adesão ao seu clube, além de conhecer um pouco mais sobre os hábitos do torcedor organizado e de avaliar a percepção desse grupo sobre o “novo Maracanã”.
É fato notório que as torcidas organizadas têm sido acusadas pelos meios de comunicação de serem os responsáveis pela violência nos estádios, com a expectativa de que as novas arenas vão contribuir para impedir os seus comportamentos belicosos e antidesportivos, tal como sucedeu na Europa.
O propósito foi tentar compreender como este tradicional subgrupo de fãs futebolísticos, que acompanham sistematicamente as partidas de seu clube, avalia e percebe as mudanças ocorridas na “cultura torcedora” em face da nova estrutura física do estádio. O grau de satisfação com o novo Maracanã, no entanto, a primeira variável utilizada neste estudo, pode ser considerado uma surpresa. Ele apresentou-se elevado, uma vez que 68% dos respondentes declararam estar satisfeitos com a configuração atual do estádio.  
Essa avaliação em muito se deve à aparente “modernização” do estádio para sua adaptação ao modelo das arenas europeias. As maiores mudanças, por exemplo, são as novas rampas de acesso ao interior do estádio, a limpeza dos corredores, a reconfiguração dos banheiros, a iluminação das marquises, os novos assentos com encosto nas arquibancadas, o maior grau de sinalização interna e o suporte do staff para orientação dentro e fora do equipamento esportivo.
Em nosso levantamento, o grau de satisfação com o novo Maracanã aumenta, à medida que cresce a faixa etária (por década) do torcedor organizado. Em menor proporção, 65% dos entrevistados com até 19 anos de idade se autodeclararam satisfeitos com o novo Maracanã. Em um patamar pouco maior, 68% dos respondentes com idade entre 20 e 29 e os com 30 e 39 anos se dizem igualmente satisfeitos. Por fim, 77% dos participantes, com idade entre 40 e 49 anos e, ainda mais alto, 78% daqueles com idade entre 50 e 59 anos manifestaram sua satisfação com o novo estádio.
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A segunda variável mensurada possui distribuição bastante similar à anterior, uma vez que a avaliação que os mesmos fazem da infraestrutura do Maracanã para a Copa de 2014 também é alta. Afinal, 71% dos participantes da pesquisa possuem uma avaliação positiva desta dimensão, ou seja, segundo a percepção do torcedor organizado dos clubes cariocas, o estádio está pronto para a realização do mundial de seleções da FIFA.
Com base nos dados levantados, somente 8% dos participantes da pesquisa avaliam a infraestrutura do estádio para a Copa de maneira negativa, como “ruim” ou “péssima”. Já 21% indicam neutralidade na avaliação do item.
Além disso, há uma tendência à associação entre as duas variáveis descritas anteriormente, uma vez que, quanto maior o grau de satisfação com o novo Maracanã, maior a tendência em avaliar de forma positiva a infraestrutura do estádio para a Copa 2014. Apenas para ilustrar, nenhum entrevistado que se diz “muito satisfeito” com o estádio julgou negativamente a sua infraestrutura.
Todavia, essas avaliações positivas do atual público que frequenta o Maracanã não se refletem na terceira variável abordada neste estudo, sobre a possibilidade de o estádio ser palco para as formas coletivas de animar e apoiar o time. Para 66% dos entrevistados, o novo Maracanã prejudicou as formas de apoio e de animação das torcidas de futebol aos seus clubes na cidade do Rio de Janeiro. A configuração arquitetônica da arquibancada do estádio e o uso de cadeiras fixas individualizadas são reclamações recorrentes entre os torcedores.
Os 34% restantes dos avaliadores estão divididos entre percepções neutras e positivas. Enquanto 15% dos respondentes acreditam que as mudanças no estádio não afetam a “festa” – categoria nativa – das torcidas organizadas, um grupo relevante de 19% confia em melhorias para a festa coletiva nos próximos anos. Neste grupo de torcedores que percebe melhorias, são os entrevistados com menor grau de escolaridade a avaliar em maior proporção avanços para a festa das torcidas no novo Maracanã.
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Ademais, aparentemente, a avaliação do novo Maracanã para a festa nas arquibancadas está associada ao grau de satisfação com o estádio atual e também com a avaliação que os mesmos fazem da sua infraestrutura para a Copa de 2014. Quanto pior é a percepção da possibilidade de o estádio ser palco para as formas coletivas de animar e apoiar o time, mais negativa tende a ser o grau de satisfação com o novo Maracanã. Ao mesmo tempo, mais negativa tende a ser a apreciação da infraestrutura do estádio para o Mundial da FIFA.
Dessa forma, no atual momento, é possível identificar o novo Maracanã como um estádio bem avaliado e percebido pelos torcedores organizados como um equipamento esportivo preparado para atender a Copa do Mundo da FIFA de 2014. No entanto, sua nova configuração criou obstáculos para as formas gregárias e coreografadas de incentivo ao time das arquibancadas.
Conclusão
Nos limites espaciais desse blog, procuramos trazer a um público mais amplo um pouco da ambiência e da conjuntura que cerca a Copa de 2014 no Brasil. Embora o “nacionalismo quadrienal” projete a imagem de uma nação unanimemente voltada para o futebol, as controvérsias que acompanhamos nesses últimos sete anos permitem relativizar essa suposta unanimidade futebolística, com um debate em torno do legado do Mundial para o Brasil, em especial a renovação dos seus estádios para os meses de junho e julho de 2014.
Se, de fato, o apelo popular dessa modalidade esportiva pode ser observado no dia a dia do país, com as conversas regulares entre os cidadãos brasileiros a respeito dos jogos, indicando um modo de sociabilidade constitutivo do etos nacional, o futebol não é apenas motivo de consenso. Veículo identitário, este esporte reflete a estrutura dos conflitos presentes na sociedade brasileira e a Copa é um momento privilegiado em que tal dimensão conflitiva vem a aflorar, sobretudo em se tratando de um Mundial sediado no Brasil.
Vivemos uma fase do futebol globalizado em que a espetacularização modificou a função e a natureza dos estádios. Se, no passado, uma praça de esportes necessitava de amplas capacidades para absorver o maior número de pessoas, nos dias de hoje seu tamanho não é decisivo como dantes. Podemos dizer que a figura do telespectador é mais importante na atualidade que a do espectador de estádio.
Com a redução de sua capacidade, as atuais arenas tendem igualmente a redefinir o público desejado nas suas dependências. As massas trabalhadoras que marcaram a formação do “breve” século XX já não fazem mais sentido nos estádios ultramodernos do início do século XXI. É este fenômeno social que incide atualmente também no Brasil, palco de um megaevento esportivo cada vez mais próximo, cujo impacto atinge o futuro dos espaços físicos que circundam o campo de jogo.
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O Maracanã, referência icônica em nível internacional, foi eleito o nosso estudo de caso, em virtude das reações populares despertadas pela mudança radical da fisionomia do estádio. Para fundamentar estas controvérsias, trouxemos dados levantados durante a conjuntura do ano de 2013, junto a torcedores organizados dos quatro grandes clubes de futebol profissional do Rio de Janeiro.
Foi possível apurar que, segundo esse assíduo segmento de frequentadores do Maracanã, os resultados da profunda reforma do estádio foram, de maneira geral, avaliados positivamente. Se o grau de satisfação com as condições da infraestrutura é alto, a avaliação se torna menos positiva quando os subgrupos de torcedores opinam acerca das coreografias e dos modos tradicionais de torcer, sensivelmente prejudicados com as arenas modernizadas.
Sendo assim, mais do que pensar sobre os efêmeros trinta dias de duração da Copa em 2014, o legado dos novos estádios nos interroga tanto com a elevação do preço dos ingressos e com a exclusão das camadas populares quanto com a principal incógnita que ele deixa: em face da nova configuração social, será possível continuar a representar o Brasil como “país do futebol” no decorrer do século XXI?
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Bernardo Buarque de Hollanda foi um dos convidados a entrevistar no Roda Viva o jornalista Juca Kfouri, autor da quarta-capa de Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Confira o programa completo abaixo:

sábado, 9 de novembro de 2013

Torcidas Organizadas de Futebol - redes de alianças e rivalidades

Pesquisando na internet encontrei este vídeo do Sétimo pelotão da Torcida Jovem do Flamengo, zona oeste e da Raça Rubro-Negra 18ª Região, Baixada. Bem legal!


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Torcidas Organizadas de Futebol



Torcida Ultra Resistência Coral (Ferroviário, Ceará, Brasil)

As torcidas organizadas são grupos mais descomprometidos com uma ética específica, com algo que se aproxime de uma ideologia e por isso mesmo são agrupamentos mais fluidos, dinâmicos e abertos. Embora haja um predomínio de jovens na maioria das torcidas organizadas, elas não são definidas e estruturadas somente em função de um único estilo (de música e adesão a um comportamento) predominantemente jovem. 

A princípio, qualquer pessoa pode integrar (e, de fato, isto ocorre) uma torcida. Ela pode ser de direita ou esquerda, velha ou moça, gostar de samba ou rock, gostar de brigar ou não. Mesmo contradizendo o discurso da elite dirigente das Torcidas Organizadas, é inegável que: “( . . . ) o uso da intervenção física como forma de interação e mediação das relações entre torcedores, com o outro, o adversário, ou mesmo como apelo à coesão social grupal , faz com que estes grupos sejam vistos, pela mídia e pela população, como hooligans brasileiros , formadores e fomentadores de gangues . Por outro lado, tentam desvencilhar- se de tais estigmas organizando- se e procurando no nível do discurso, na participação em eventos como o carnaval oficial e na negociação com outras instituições e grupos (PM, Torcidas Organizadas, Imprensa) formas mais legitimadas de interação social e participação no futebol profissional e na sociedade”. (TOLEDO, 1996: 131) . 

Toledo aponta também que o entendimento de organização grupal das torcidas organizadas difere daquela estruturada entre os hooligans, pois de acordo com o autor esses torcedores: “( . . . ) primam pela transgressão deliberada e pelo anonimato, haja visto o esforço desses torcedores na veiculação de fanzines onde são mostradas e ensinadas táticas para burlar o policiamento. As Torcidas Organizadas almejam um lugar dentro do futebol profissional como participantes oficiosos do espetáculo, não negam o futebol como entretenimento ou lazer, ainda que par te de suas ações e práticas o façam” (TOLEDO, 1996: 130) ..

O termo hooligans, utilizado atualmente para designar tanto um segmento da torcida inglesa, que frequenta as partidas de futebol, tanto quanto um determinado comportamento agressivo observado nos estádios ou fora deles, tem sua origem vinculada ao nome de uma família irlandesa que viveu em Londres no fim do século XIX, a família “houlihan”. Devido às características de violência e de não-sociabilidade de seus membros, esse termo passou, gradativamente, a designar os jovens que se organizam em gangues, grupos de torcedores, etc. veiculação de fanzines onde são mostradas e ensinadas táticas para burlar o policiamento. As Torcidas Organizadas almejam um lugar dentro do futebol profissional como participantes oficiosos do espetáculo, não negam o futebol como entretenimento ou lazer, ainda que parte de suas ações e práticas o façam” (TOLEDO, 1996: 130) .

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

UNIÃO DE TORCIDAS ORGANIZADAS



A dinâmica de aproximação e distanciamento entre torcidas organizadas de futebol no Brasil é estabelecida não somente pela natureza competitiva instaurada pelo futebol, mas também pela ocupação de um espaço político junto aos clubes, e frente a outras torcidas de diferentes estados, pois, ter torcidas aliadas em outros estados é sinal de respeito e reconhecimento (TOLEDO, 1996:99). Empiricamente, a relação de aliança e rivalidade entre torcidas organizadas de futebol obedece a certa configuração que está longe do
âmbito da mera casualidade. Torcidas organizadas de futebol ramificamse e mantém laços de amizade mais permanentes, que se estendem por vários estados do Brasil, como o caso dos grupos de torcidas aliadas
denominados: União Punho Cruzado, União Dedo pro Alto, União Punho Colado, entre outros. Em outros países da América do Sul, as relações de amizade entre torcidas de diferentes clubes de futebol também ocorre, não sendo exclusividade das torcidas brasileiras.

A aliança entre torcidas organizadas de futebol pode ser vista como uma relação que se configura no conhecimento, reconhecimento e amizade dos diferentes grupos de torcedores organizados que participam
dessas relações. A aliança entre torcidas organizadas de futebol costuma ser bastante fixa e duradoura, contendo poucos casos registrados de rompimento entre torcidas. A aliança estabelecida entre torcidas organizadas de futebol, de acordo com Fernandes, proporciona em certa medida um: “( . . . ) relacionamento extra- territorial entre Torcidas Organizadas de times de vários estados do país, permitindo uma confraternização superadora de diferenças entre seus integrantes em certa medida reforçadora dessas mesmas diferenças pelo contraste, expondo similitudes no modo de torcer e propiciando uma via de espelhamento da própria identidade enquanto grupo” (FERNANDES, 2000: p.71) .

A aliança estabelecida entre algumas torcidas organizadas de futebol adquire uma especificidade e dimensão que evoca a esfera da reciprocidade, poder e prestígio, ou seja, uma dimensão política que se estabelece entre estes grupos torcedores. Essa relação entre as torcidas faz lembrar Marcel Mauss e sua análise sobre o dom, quando destaca a retribuição obrigatória dos presentes. 

“A circulação de bens segue a dos homens , das mulheres e das crianças, dos banquetes, dos ritos, das cerimônias e das danças, e até mesmo a das pilhérias e injúrias. No fundo ela é uma só. Se se dão e se retribuem coisas, é porque se dão e se retribuem “respeitos” – dizemos ainda “gentilezas”. Mas é também porque o doador se dá ao dar, e, se ele se dá, é porque ele se “deve” – ele e seu bem – aos outros (1974: 129) .

A reciprocidade entre torcidas aliadas está pré-estabelecida pelo próprio calendário do campeonato, quando os torcedores ficam sabendo com antecedência a data dos jogos nas cidades onde possuem torcidas aliadas. As torcidas organizadas, sejam elas aliadas ou rivais, se assemelham quanto à morfologia interna, evidenciada por níveis socioeconômicos e culturais bastante congruentes dos torcedores que delas participam, ainda que existam diferenças no que diz respeito à organização interna da torcida, número de filiados e patrimônio.