segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Torcidas Organizadas Aliadas: União Vascaína (Vasco da Gama) e Torcida Acadêmicos da Savóia (Palmeiras)

Durante o jogo Vasco 2 x 3 Grêmio, estive entre os torcedores vascaínos aplicando questionários e conversando sobre sua vida de torcedor organizado. 

Na torcida organizada Unidos Vascaínos, a conversa foi muito boa com os torcedores e alguns falaram sobre as relações de amizade com demais torcidas de outros clubes. A torcida Acadêmicos da Savóia foi a mais citada pelos torcedores. Um deles comentou que quando foi para São Paulo assistir um jogo entre Vasco e São Paulo, o presidente da torcida Savóia lhe buscou na rodoviária e o hospedou durante 8 dias em sua casa, com acesso a internet, destaca o torcedor.

Foto: Leandro Campos (17/08/2013)
Esse comportamento já foi observado em outros estudos e parece ser uma prática comum. Me lembro de um recifense que ficou hospedado no bairro de  Cordovil na casa de um torcedor organizado do Flamengo.
Essas redes de torcidas "famílias", torcidas "unidas", "aliadas", "irmãs", merece um estudo a parte por se tratar de um contexto que cria novas formas de convivência e sociabilidade entre jovens das grandes cidades brasileiras.



fonte: http://www.academicosdasavoia.com.br/index.php?option=com_morfeoshow&task=view&gallery=7
O interesse em estudar grupos de torcedores organizados e suas relações de amizades extra- grupal deve-se ao fato de que as alianças estabelecidas entre algumas torcidas organizadas assume uma importância fundamental no estilo de vida dos torcedores, sendo reconhecida pelos demais torcedores organizados de outras torcidas, do mesmo clube ou de clubes diferentes, cujas idéias, ambições, desejos e vaidades estão intimamente relacionados a preservação e manutenção do grupo social do ao qual eles pertencem. As relações de amizade/inimizade entre as torcidas organizadas teve como um dos elementos importantes para sua constituição as caravanas de viagens para acompanharem seus clubes por diversos estados do país. A partir do campeonato brasileiro de futebol, criado em 1971, essas redes de amizade/inimizade foram sendo desenhadas e reafirmadas ao longo dos anos. As "alianças entre torcidas organizadas começaram a ser constituídas em um dualismo amizade/inimizade que variava ao sabor das recepções, se hospitaleiras ou hostis, bem como das circunstâncias da rivalidade entre os clubes ou ainda dos contatos pessoais entre as lideranças de cada torcida” (HOLANDA, 551). 



A sociabilidade entre as Torcidas Organizadas de Futebol Aliadas formam redes sociais em que relações de reciprocidade e prestígio fazem parte dessa “união” entre os integrantes que delas participam, extrapolando as fronteiras do campo esportivo, envolvendo também os familiares dos torcedores organizados ...torcidas organizadas aliadas, onde as relações entre os torcedores pertencentes destas instituições mantêm relações de amizade não somente durante as partidas de futebol, como antes e depois dos jogos. 

Muitas vezes, as torcidas organizadas são apresentadas pela mídia como reduto de vândalos e baderneiros, que praticam atos de violência de forma gratuita. Ao desenvolver este trabalho, percebi que as torcedores organizados de futebol são sujeitos que estão comprometidos com o espetáculo futebolístico, dedicando grande parte de suas vidas à acompanhar seus clubes diariamente, não se restringindo a irem ao estádio e torcer, sua maior paixão. O envolvimento desses jovens com as torcidas organizadas muitas vezes compromete suas relações familiares, escolares, trabalhistas, tamanho é o envolvimento que alguns torcedores passam a ter com a torcida e suas caravanas. 

A emoção que o futebol proporciona aos torcedores, em especial aos organizados, lembra aquilo que Norbert Elias (1992) argumentou a cerca do processo civilizador e o controle das emoções coletivas. Os estádios de futebol e as grandes arenas esportivas são locais onde as emoções coletivas podem ser liberadas e exibidas na modernidade por esses torcedores organizados e não organizados, claro. A estrutura de uma torcida organizada não se restringe ao espetáculo por elas apresentadas dentro dos estádios. Faz-se necessário ter competências para que sua organização, sua capacidade para a festa e sua atuação na pista sejam reconhecidas pelos outros grupos torcedores. 

organização de uma torcida passa pela sua legalidade para funcionar como agremiações e sua relação com outras instituições (Polícia Militar, Clubes de futebol, outras torcidas organizadas, ...), além da burocracia interna para organização da instituição. 
festa promovida pelas torcidas dentro dos estádios é sempre pensada e elaborada durante os dias que antecedem os jogos. Nas reuniões nas sedes, os responsáveis pela torcida dedicam grande parte do seu tempo para promoverem um belo espetáculo durante a partida, selecionando as bandeiras e faixas, fazendo manutenção dos instrumentos musicais utilizados pelos membros que participam da bateria da torcida, sinalizadores (hoje em dia está proibído ma ainda é utilizado por algumas torcidas no Brasil principalmente em finais, inclusive torcidas de outros países acenderam sinalizadores em solo nacional após proibição), papel picado, entre outros adereços utilizados pelas agremiações. 

pista pode ser entendida aqui como o local onde grupos de torcedores rivais podem se encontrar e entrar em conflito, defendendo o patrimônio e honra de sua agremiação, querendo fazer história na torcida. As ruas das grandes cidades, as principais vias de acesso aos estádios, estações de trem e metrô, podem ser consideradas locais onde os torcedores organizados devem manter sua coesão interna, defendendo o grupo ao qual pertencem, utilizando como um dos mecanismos de defesa da honra torcedora os confrontos físicos. 

O sentido da honra entre os torcedores organizados de futebol encontra-se na situação de reconhecimento de outros grupos torcedores. A possibilidade sempre existente de um confronto com outro grupo torcedor é o que compõem a honra dos torcedores, o desafio por eles enfrentados, seus perigos e riscos, na organizaçãofesta pista

Ao ter um de seus “troféus” roubados por um grupo rival, o mesmo deve ser tentado numa próxima oportunidade. A necessidade de manifestar a superioridade do grupo torcedor ao qual pertence sem eliminar o oponente constitui-se o jogo da honra

O intervalo existente entre o dom contra dom entre os grupos torcedores aliados está baseado no calendário dos campeonatos interestaduais que os clubes ao qual dedicam suas atividades disputam. O intervalo entre os jogos “dentro de casa” e “fora de casa” insere a incerteza entre as torcidas organizadas aliadas, sendo necessário demonstrar suas relações de amizade jogo após jogo. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

CHANCHOLIGANS de Luque - Paraguay

As torcidas organizadas e as regiões metropolitanas das cidades sul-americanas: os Chancholigan´s de Luque no Paraguay.

O Sportivo Luqueño, clube de futebol da cidade de Luqye empatou nesta quarta-feira em 1 a 1 com o Independiente Santa Fé, da Colômbia, na partida de ida das semifinais da Copa Sul-Americana, que foi disputada na cidade de Luque, na região metropolitana de Assunção, onde também fica a sede dos Chancholigan's de Luque como são conhecidos os torcedores da hinchada do Sportivo Luqueño.

Os barra bravas do Sportivo Luqueño são conhecidos como os CHANCHOLIGAN'S (CH'S) devido a paixão e devoção dos seus torcedores ao clube, a torcida e a cidade de Luque. Os Chancholigan´s são muito populares no Paraguay assim como as organizadas do Cerro Porteño e Olimpia.

No final dos anos 80 e início dos anos 90 foi fundada a hinchada organizada do time Luqueño e a história da torcida narra que "debido a su bravura y violencia fue bautizada por el periodista Julio González Cabello como Chancholigans, debido a su similitud con los "Hooligan " ingleses. Um dos primeiros líderes dos chancholigan's era conhecido como "Mariscal" que morreu e 1991. Alguns anos após a morte de "Mariscal', Ña Perla de Gavigan se torna a primeira mulher chefe de uma barra brava, reorganizando a estrutura da barra e criando a BAYO. 

Em meados da década dos anos 2000 os barra bravas das hinchadas de Chancholigan's e BAYO, comandadas na época por "Joselo" Flores e Ña Pérola de Gavigán, respectivamente, passaram a ter divergências no modo de torcer para o mesmo time e de se relacionar com o clube e todo o universo do futebol e dos meios de comunicação.



terça-feira, 27 de outubro de 2015

A participação feminina na Torcida Jovem do Flamengo

O feminino no "pelotão" 

A presença de mulheres nos estádios vem crescendo gradativamente, essa tendência é representada pela participação de mulheres em programas esportivos ligados ao futebol e a criação de diversas comunidades em sites de relacionamentos da internet exaltando a paixão pelo esporte e pelo time de coração. Sendo assim, essa tendência evidencia o desgaste do jargão: “futebol é coisa de homem”. 

Idéia difundida até pouco tempo, caracterizada pela pequena presença feminina nos jogos, sendo as mulheres desestimuladas devido aos casos de violência ou mesmo proibidas pelas famílias de freqüentarem as arquibancadas. Devido o aparecimento dos torcedores símbolos, como Jaime de Carvalho, algumas mulheres passaram a ter visibilidade no futebol por 24 IAPI da Penha é um conjunto habitacional localizado no bairro da Penha, que se tornou um dos locais de encontro dos torcedores da Torcida Jovem do Flamengo antes das partidas realizadas no estádio do Maracanã. 25 A linha de ônibus normalmente utilizado pelos torcedores do 4° pelotão para irem ao estádio do Maracanã é a linha 665 (Pavuna – Praça Saens Peña). 44 seu amor incondicional ao time, como é o caso da torcedora-símbolo Elisa, que no ano de 1953 ganhou o prêmio de torcedor número 1 do Corinthians, seu prestigio era tal, que foi a ela dado um ingresso permanente da Federação Paulista de Futebol que lhe permitia entrar em qualquer estádio. Em 1961, outra mulher a se destacar no cenário torcedor foi Dulce Rosalina, torcedora do Vasco da Gama, ela ganhou o título de melhor torcedor do país, por acompanhar seu time em partidas no Rio de Janeiro e fora da cidade. 

No ano de 1956 Dulce Rosalina passa a ser primeira mulher presidente de uma torcida organizada, a TOV (Torcida Organizada do Vasco), organização fundada no ano de 1944, mas por problemas políticos em 1966, Dulce deixa a TOV e funda a torcida Renovascão da qual esteve presente até seu falecimento em 2004. De acordo com Leda Maria da Costa (2006) a maior presença de mulheres nas torcidas organizadas de futebol se dá a partir da criação de facções femininas dentro de alguns grupos, como o casos na Torcida Jovem do Flamengo, Dragões da Real (São Paulo Futebol Clube) e da Torcida Organizada Galoucura (Atlético Mineiro). Mas em alguns casos a presença das mulheres é tão intensa que são criadas torcidas exclusivamente femininas como é o caso da torcida Mulheraço (Volta Redonda), Gatas da Fiel (Paysandu). De acordo com Teixeira (2004), os membros masculinos das organizadas associam a escassez de agrupamentos femininos nas torcidas devido ao temperamento feminino ser “pouco afeito à união e constantemente inclinado a promover desavenças internas nos grupos dos quais fazem parte. Além disso, os torcedores masculinos costumam apontar a falta de estrutura desses agrupamentos femininos dentro das torcidas. 

No caso da Torcida Jovem do Flamengo, as palavras de um de seus monitores de pelotão mostra como se relacionam os torcedores masculinos e femininos dentro da torcida: “Por exemplo, as meninas aqui do 4º pelotão não participam do pelotão feminino, fazem questão de dizer que são do 4º e não do feminino.Por causa da futilidade das meninas do feminino, e na prática nosso feminino não serve pra nada...as meninas 45 aqui gostam de ser úteis e participativas. Elas dizem que as meninas do feminino só sabem beber e fazer churrasco”. Monitor Roberto. Na Torcida Jovem do Flamengo, a torcida feminina, conhecida como pelotão feminino foi criado no ano de 1991 e de acordo com o site as torcedoras se intitulam como “um grupo de guerreiras que fundaram o primeiro pelotão destinado as mulheres... somos pioneiras”. Para as torcidas organizadas é interessante a maior participação de mulheres para que seja desvinculada a imagem de violência agregada a essas organizações. Mas no caso das torcedoras que freqüentam a sede do 4º pelotão, elas preferem não participar do pelotão feminino da torcida por acreditarem ser mais úteis dentro do pelotão ao qual freqüentam. “Bom mano, aqui no 4º pelotão elas participam dando idéias, estando no dia a dia, se precisamos transportar algo ou alguém, vêm uma com o carro e leva, se precisamos nos livrar de dura ou coisas do tipo elas estão do lado e por aí vai, são componentes muitos úteis”. Monitor Roberto. Ou seja, de acordo com o monitor do 4º pelotão, estas torcedoras querem se desvincular da imagem de festeiras que as mulheres ganharam na torcida. Estas integrantes se engajam assim como os homens torcedores, buscam responsabilidades e procuram se inteirar de todos os assuntos que circundam seu agrupamento seja na elaboração de projetos, no transporte ou em defesa de integrantes do seu grupo perante a ação da polícia. O 4º pelotão por ter uma relação diferenciada com as mulheres torcedoras de acordo com seu monitor ganha a participação feminina de outros pelotões. “Cara, na realidade acontece só aqui, aqui vem até meninas de outros pelotões. Tem uma do 2º, três do 7º, uma do 3º e uma do 1º que dizem com orgulho que são do 4º. Participam também mulheres de outros pelotões como uma do 1º, 2º, 3º e três do 7º “pelotão”. Porque aqui damos espaço a elas. Em outros lugares os caras vêem elas apenas co mo uma vadia que veio pra torcida atrás de piru E tem umas que aceitam isso. As daqui não”. Monitor Roberto. 46 A participação das mulheres vem sendo cada vez mais respeitada dentro do mundo do futebol, assim como na prática do esporte, na torcida, na arbitragem e também na administração de clubes, desmistificando o futebol como um esporte viril, masculino e violento.